Janeiro 25, 2009

CARNIVÀLE, DE DANIEL KNAUF (HBO, 2003-2005 - 2 TEMPORADAS, 24 EPISÓDIOS)

Estava vendo na net uma discussão sobre o porquê da série Carnivàle, da HBO, não ter dado certo.

Descobri essa jóia muito recentemente. Na verdade, já tinha passado por ela no canal, mas achei tão bonito que fiquei com pena de assistir sem seguir a estória, então deixei para outra ocasião. Nesse meio tempo, os caras tiveram prejuízo por falta de audiência. O projeto era mega caro e eles tiveram que cancelar.

Estou no meio da segunda temporada e não consigo parar de assistir. Pode não ter dado certo pra HBO, mas pra mim, deu certo, sim. Estou encantada com o roteiro, a estória, os atores, a cenografia, a foto... Que capricho.

Ainda não sei se a estória terá um final amarrado por conta do cancelamento, mas sinceramente não me importa. Fico lisonjeada que eles tenham gastado 4 milhões de dólares por episódio somente para minha alegria e deleite. :P Nem sei como agradecer...

Janeiro 19, 2009

Seguindo a estratégia de desinformar para controlar, a campanha
de combate à pirataria anda mais para caça às bruxas.

SOBRE A PIRATARIA

Dia desses, um carinha respondeu a um tópico em umas dessas listas de discussão de roteiro passando um link para download de um livro do Doc Comparato. Alguns agradeceram, outros tiveram reações inflamadas de “repúdio” à atitude “irresponsável” do rapaz. O pobre acabou expulso do grupo por “pirataria”. Como eu mesma venho fazendo algumas reflexões sobre o assunto e já sou chegada numa controvérsia, decidi dividir minha opinião.

Nos meus primeiros anos estudando roteiro, comprei tudo o que havia publicado sobre o assunto no Brasil. Na época, eram esse mesmo livro do Doc, os do García Márquez, aquele do Chion e mais uns dois. Li todos. O mesmo aconteceu com os filmes - depois de alguns anos de cinefilia desenfreada, dei cabo de tudo o que me interessava no acervo nacional.

Como eu queria focar meu trabalho em terror e suspense e meus recursos eram limitados, comecei a procurar informação mais direcionada na internet. Aos poucos, fui descobrindo um mundo infinito de coisas bacanas que foram diversificando de maneira espantosa meu leque de referências. Eu não conhecia Kiyoshi Kurosawa, Kaneto Shindô, Chang-dong Lee, György Pálfi, Shinya Tsukamoto. Vi coisas que mudaram a minha percepção do cinema, e que talvez nunca saiam comercialmente aqui: "The Taste of Tea", "Anklaget", "The Chaser", "Shadows in the Palace", "Step Across the Border", "Onibaba", "O Inquilino"...

Nunca mais assisti TV.

A questão é que a internet virou do avesso a maneira como as pessoas se relacionam com a informação. Assumimos controle total não apenas sobre a escolha de conteúdo, mas do momento e do modo com faremos uso dele. O mundo mudou, mas o modelo de gestão de negócio de gravadoras, editoras, produtoras e estúdios continuou o mesmo. Pior: esses caras veiculam campanhas que induzem o público a erro. Piratear é crime, mas não tem nada a ver com roubo; e o compartilhamento de cópias sem fins lucrativos é legal no Brasil, previsto em lei (para informações mais sensatas, click here).

E é aí que a coisa complica. Pois se nós roteiristas estamos subordinados a uma indústria que faz uma gestão de negócio que não está alinhada com o mercado, será que estamos realmente defendendo nossos empregos quando enaltecemos a forma como eles lidam com a questão dos direitos autorais? Até que ponto vai o nosso interesse nesse modelo?

Entendam que essas não são perguntas retóricas - eu não tenho a resposta para elas. Mas também não vejo como as pessoas poderão ser impedidas de compartilhar conteúdo, mesmo que a legislação endureça. Deixou de ser razoável exigir isso quando tanta gente grava DVD em casa. Até meu macaco de pelúcia já sacou que não há matemática no mundo que justifique um CD de música custar 20 reais.

Está cada vez mais barato produzir e difundir informação, e se a espécie humana tivesse um pouco de bom senso, enxergaria isso não como uma ameaça, mas como uma oportunidade de crescimento econômico e de integração em escala global. Estamos lidando com um novo conceito de democratização, e isso em si já traz desafios. Eu não vejo quem tem a lucrar com o prolongamento desse impasse em torno de um crime que nem crime é. Talvez seja simplesmente o caso de olhar para os novos modelos de se remunerar as pessoas que criam e produzem conteúdo. Há diversos exemplos inovadores e lucrativos.

Realmente acho errado alguém reproduzir o trabalho dos outros para vender ilegalmente e obter lucro, e é isso que eu entendo por "pirataria". O que o rapaz fez lá no grupo foi compartilhar um livro que provavelmente foi escaneado por alguém que também não ganhou nada com isso, criando uma cópia perene de um livro que, a propósito, está fora de catálogo. Compartilhar sem fins lucrativos é perfeitamente lícito. E no dia em que a mídia se empolgar no discurso e adotar de vez o "pirataria é crime e compartilhamento também é", não vai dar pra comprar essa idéia, não...

Janeiro 16, 2009

Longe do mercado de trabalho e com esses novos
eletrodomésticos, só vai dar eu nessa cozinha!

MULTIMULHER MY ASS

Assim como Hitler, cujo ridículo serviu para mascarar o perigo que ele representava, venho assistindo abismada à ascenção de um conceito que me soaria risível se não fosse tão chocante: o da super-mulher. Estava eu lá largada no meu sofazinho, com a casa caótica e muita louça por lavar, quando me entra a Malu Mader na TV explicando os muitos "papéis" que ela desempenha na vida: esposa, mãe, profissional, amante, companheira, blá, blá. O comercial, de uma marca nova de eletrodomésticos, amarra esse conceito demente com uma frase que me fez tremer nas bases: "Mabe, a marca da multimulher."

A versão século 21 da marionete de antigamente é trabalhadora, meiga, inteligente, dinâmica, sagaz, competente, versátil, fina, sexy e segura de si. Percebi subitamente que eu tinha entendido tudo errado. Na minha cabecinha ingênua, a idéia por trás da igualdade entre os sexos era de que isso seria um direito nosso, não uma concessão da sociedade. Entrei nessa achando que eu finalmente poderia acordar de ressaca, descabelada, mal-humorada sem que isso fosse visto como uma coisa curiosa ou "fofinha"; que eu poderia ser mesquinha, babaca ou pedante sem que ninguém tecesse teorias sobre a fase do ciclo menstrual em que me encontro.

Longe de mim querer diminuir minhas amigas multimulheres, mas se for pra ser assim, solicito transferência imediata de volta para a cozinha. E de lá, do alto do meu trono de rainha do lar, estarei finalmente em posição de dar à Malu um conselho sincero, tailor-made, de mulher pra mulher: não exponha as fraquezas do seu amado desse jeito, gata. Não em público. O Tony deve estar sentido agora o país inteiro descobriu que ele não sabe colocar um eletrodoméstico na tomada e apertar "liga". Logo ele, que parecia um rapaz tão inteligente...

Mais cuidado, darling! Você não quer acabar solteira, do you?

Novembro 02, 2008

32ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO (4) - POST FINAL

Não vou dizer que me arrependo de ter ido à Mostra esse ano, mas devo confessar que tenho dúvidas se repetirei a dose ano que vem. A organização na Central melhorou muito, mas realmente faltou capricho em outras frentes, principalmente nos quesitos programação, legendagem e qualidade das cópias. Saí de tantas sessões sem terminar de ver o filme que francamente não sei se a empreitada valeu o suor do meu dinheiro.

Mas como
o que importa nessa vida é o saldo de filmes bons que se leva dela, vamos ao que interessa, pois a repescagem é só até o dia 6. Para ver a programação, clique aqui.

Red, de Lucky McKee e Trygve Allister Diesen (Red - EUA, 2008)

Três moleques entediados resolvem matar o cachorro do pacato Avery Ludlow por pura crueldade, sem imaginar o tamanho da encrenca em que estão se metendo. A passos lentos e teimosos, o velho Av não sossegará enquanto esses mequetrefes não disserem a verdade e nada mais que a verdade.

Brian Cox brilha nesta adaptação da (muito bem bolada) estória de Jack Ketchum. Pena que a cópia do filme que veio para a Mostra estava escuuuura... Talvez por isso não tenha entrado na repescagem.

Jodhaa Akbar, de Ashutosh Gowariker (Jodhaa Akbar - Índia, 2008)
Bollywood é como uma Hollywood que não se leva tão a sério. O resultado é que o espectador se diverte a valer com aqueles clichês picaretas que há muito não funcionam mais no cinema americano. Sem mencionar o luxo que é a produção, a maravilha que é a música indiana, a criatividade daqueles planos de batalha e a beleza de Aishwarya Rai, que sempre assusta.

O Estranho em Mim, de Emily Atef (Das Fremde in Mir - Alemanha, 2008)
Mais impressionante que a depressão pós-parto é o fato de sabermos tão pouco sobre ela - afinal, o problema não é nenhuma raridade, afligindo uma em cada dez fêmeas dessa nossa estranha espécie.

Suzanne Wolff está sublime no papel da mulher que precisa tentar descobrir dentro de si uma mãe que ela nem sabe se existe. Bonito pacas. E está na repescagem.

That's all, folks!

Outubro 26, 2008

32ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO (3)

Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman (Synecdoche, New York - EUA, 2008)
Desconcertante, muito comovente e nada pop, a estréia na direção de Charlie Kaufman vale o ingresso.

Outubro 23, 2008

32ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO (2)

O Silêncio de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Le Silence de Lorna - França, 2008)
Fui injusta com "O Silêncio de Lorna". Saí da sessão um pouco estupefata, mas a despeito do estranhamento (não propriamente no bom sentido) que o filme me causou, não consegui tirá-lo da cabeça. É daqueles para ficar ruminando durante um tempo, e passado esse tempo eu posso dizer que trata-se de um trabalho realmente cinco estrelas.

Outubro 21, 2008

32ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

A Mostra deste ano não trouxe muitas das coisas que eu queria ver - o novo do Spike Lee, por exemplo -, mas compensou isso com algumas jóias que eu não pensei que viriam. Meus favoritos até o momento:

Sonata de Tóquio, de Kyioshi Kurosawa (Tokyo Sonata - Japão, 2008)
Surpreendentemente emocional para um filme de Kurosawa, esta é a primeira vez que a Mostra traz algo deste que é talvez o maior cineasta de terror em atividade. Mesmo longe do gênero que o consagrou, ele chega com uma de suas obras mais consistentes, e dá um sonoro cala-a-boca para os que duvidavam de sua capacidade de se reinventar.

Deixe Ela Entrar, de Tomas Alfredson (Låt den Rätte Komma In - Suécia, 2008)
Originalíssimo filme de criança-vampiro vindo da fria Suécia, filmado com amor incondicional e com remake americano agendado. Mistura terror com romance infanto-juvenil, e a sensação final é de uma doçura inesperada e desconcertante.

Queime Depois de Ler, de Joel e Ethan Coen (Burn After Reading - EUA, 2008)
Ainda que num registro bem mais leve que o de "Onde os Fracos Não Têm Vez", o filme não foge do tema habitual dos Cohen: nossa miopia diante da mesquinhez de nossas próprias motivações. Entre os muitos atrativos estão as habituais mortes gratuitas, uma atuação muito carismática de Brad Pitt e a melhor cadeira de balanço da história do cinema.

Na medida em que eu for vendo coisas legais, vou postando.

Cheers!

Abril 17, 2007

É, deu Coréia do Sul. De novo.

"O HOSPEDEIRO" (Gwoemul, 2006)

QUE DENTES GRANDES VOCÊ TEM...

Após longa ausência, retomo este blog com tripla alegria no coração: entrei de férias, poderei comentar alguns filminhos e acabo de saber que há estréia prevista no Brasil para um dos melhores longas que vi nesses últimos tempos. A jóia em questão é “Gwoemul” (Coréia do Sul, 2006), conhecido no mercado internacional como “The Host” e por aqui como “O Hospedeiro”. Talvez chegue a poucas salas, talvez receba a pecha de "mais um filme da interminável safra de horror asiático". Mas cabe alardear que trata-se da maior bilheteria de toda a história da Coréia do Sul, com 13 milhões de espectadores, o que prova que terror pode ser uma arte refinada, complexa e trazer resultados estético-financeiros memoráveis.

A premissa pode parecer surrada, mas sua origem é real e bastante infame. Em 2000, um alto militar norte-americano mandou derramar incontáveis litros de formaldeído, entre outros químicos tóxicos, pelo ralo da pia do necrotério de sua base militar - em território Coreano. Estava perfeitamente ciente de que tudo acabaria no rio Han, mas as garrafas estavam muito sujas e o homem detestava poeira. Na impiedosa sátira de terror dirigida por Joon-ho Bong (do primoroso “Memórias de um Assassino”, disponível por aqui em DVD) as conseqüências são bem piores que a impunidade com que o militar foi agraciado na vida real. No filme, após alguns anos, emerge do rio contaminado um monstruoso peixe mutante - assassino, é claro, senão não teria graça.

Quem freqüenta inocentes parquinhos à beira-rio aos domingos saberá calcular o pandemônio que se instaura quando a criatura de dez metros resolve sair de seu reduto aquático para um breve lanche. Para além do mero saldo de mortos e feridos, descobrir-se-á que o tal monstrengo é hospedeiro de um vírus mortal. O arremate dessa sangrenta estripulia dominical será a abdução da jovem Hyun-seo Park (a fofa A-sung Ko), cuja família tem uma pequena loja de guloseimas nas cercanias do rio. Será o início do desespero para Gang-du Park, seu amoroso e inacreditavelmente inepto pai (Kang-ho Song, sempre sublime). Pois embora ele próprio tenha passado pela agonia de ver a filha morrer, um telefonema da garota mudará tudo, unindo sua surreal família numa missão de resgate nada convencional pelos esgotos de Seul.

A criatura é interessantíssima, com design refinado e movimentação criativa, mas idêntico cuidado foi tomado na construção das personagens humanas. O avô da menina (Du-na Bae), por exemplo, é um pai solteiro e criou três filhos no aperto, com péssimos resultados. A melhorzinha do trio é a tia (Hie-bong Byeon), uma arqueira profissional que logo de cara perde a medalha de ouro em disputa, para desgosto de Hyun-seo. Ladeira abaixo no conceito da menina estão seu pai carinhoso mas constrangedor e seu tio graduado mas alcoólatra (Hae-il Park). O timaço de atores chega blindado por um grau de excelência técnica que tomou público e crítica de assalto no último festival de Cannes.

Cada minuto do filme é um deleite. A seqüência da aparição do monstro já nasceu clássica, mas todas estão repletas daqueles detalhes grandes e pequenos que evidenciam uma narrativa bem cuidada e generosa: o cachorro que se estressa com o ataque do monstro e ataca o próprio dono; o pote de moedinhas que Gang-du guarda para Hyun-seo; a medalha de bronze na mão da tia durante o funeral; as latas de cerveja; a presença da menina faminta no almoço da família angustiada; Gang-du refazendo nos dedos a conta de quantas balas restavam na espingarda; o churrasquinho que os cientistas promovem fora do trailer; as mãos do menino Se-joo segurando as tiras da camisola de hospital de seu salvador.

Joon-ho Bong sabe que o grande diretor é aquele que se cerca de gente competente por todos os lados. Os enquadramentos são divinos, a edição é hipnótica, os efeitos especiais (importados dos States) são luxo puro e a trilha sonora de Byung-woo Lee (de “A Tale of Two Sisters”) é jóia, com menção honrosa para o tema do monstro. E todo esse glacê não faz qualquer tentativa de disfarçar a ácida crítica proposta pelos realizadores, metralhando sem pena a paranóia e a psicopatia de instituições que se voltam contra seus cidadãos por puro tédio e embriaguez de poder.

Para quem não conhece nada do cinema da Coréia do Sul, é um susto. E um aviso, se me permitem opinar. Fala-se tanto na construção de cinematografias sólidas fora de Hollywood, mas a verdade é que para competir com os americas, é preciso superá-los. O estrondoso sucesso desse “O Hospedeiro” em seu mercado de origem é fruto de uma reputação arduamente construída pelos cineastas de lá junto ao próprio público. Hoje, coreanos vêem filmes coreanos porque seus tiroteios e explosões são mais criativos que os dos americanos e suas metáforas são mais ricas que as dos franceses. Ninguém vai ao cinema por condescendência nacionalista - se vai, não deveria.

Se a Coréia do Sul fosse um conto moral e não um país cada vez mais próspero, sua lição para o mundo seria apenas uma: excelência não é acidente. É primor, investimento, superação técnica, profissionalização e ousadia. Sem culpar o público e sem subestimar sua inteligência; sem desdenhar de Hollywood e sem reeleger ladrão.

A família Park: o pai Gang-du (Kang-ho Song), o tio Nam-il (Hae-il Park), a menina Hyun-seo (A-sung Ko), a tia Hie-bong (Hie-bong Byeon) e o avô Nam-joo (Du-na Bae).

O improvável herói Gang-du, mais um magistral personagem para a galeria do camaleônico Kang-ho Song (de “Memórias de um Assassino”, “Zona de Risco” e “Secret Sunshine”).

Instituições entediadas: o desespero da família é alvo do frio fetichismo da mídia. Logo mais, a bola passa para médicos, militares e cientistas.

Hie-bong respira fundo e ataca o monstro.

Fevereiro 02, 2006

"Hedwig", de John Cameron Mitchell - literalmente espetacular

"HEDWIG - ROCK, AMOR E TRAIÇÃO" (Hedwig and the Angry Inch, 2001)

GÊNERO, IDENTIDADE E ROCK N’ ROLL

A improvável figura de uma travesti com uma peruca Farrah Fawcett à frente de uma banda de rock pode parecer estranha, a princípio. E "Hedwig - Rock, Amor e Traição" ("Hedwig and the Angry Inch", 2001), de John Cameron Mitchell, começa exatamente assim: com a banda no palco. No caso, um restaurantezinho daqueles bem família, cujo público, entre garfadas, tenta em vão dominar sua perplexidade diante da inaudita performance. Mas o som da banda é sensacional. As canções são simplesmente perfeitas. E a vocalista, logo veremos, é uma crooner nata, e das boas. "Por que diabos eles não estão tocando para um público MTV e vendendo milhões de discos?", pergunta o espectador incauto.

É este o problema: eles estão. Pois um certo moleque, que responde pela hilariante alcunha de Tommy Gnosis (Michael Pitt, de "Os Sonhadores"), vem fazendo rios de dinheiro como suposto autor das músicas. Sua aparência, embora andrógina, é comercialmente mais vendável – um híbrido de Brian Molko com Billy Corgan. E enquanto corre o complicado processo por plágio da banda, eles seguem ferozmente a turnê de Gnosis tocando em qualquer espelunca, desde que seja vizinha ao local onde o jovem ídolo se apresenta.

Daria um bom filme, mas esta sequer é a premissa principal. Na verdade, o mais importante aqui é a trajetória de Hansel Schmidt (Ben Mayer-Goodman), um menino da Alemanha Oriental que mora com a mãe (Alberta Watson) perto de uma base militar americana. Abusado pelo pai, Hansel cresce isolado e solitário ao som da rádio das forças armadas. Debbie Boone. Anne Murray. Toni Tenille. Iggy. Lou. Bowie. Sacou?

E Hansel gosta de tomar sol nos arredores do muro de Berlim. Este, mais tarde, simbolizará sua própria divisão interior. Dado dia, conhece o soldado americano Luther (Maurice Dean Wint), que chega a confundi-lo com uma menina. Seu bilhete de saída para o ocidente adquire contornos evidentes, mas o anjo da guarda de Hansel, como ele mesmo diz, acaba dormindo durante a vigília.

"Hedwig" começou como drag-show numa boate gay em 1994 – esforço conjunto do então ator John Cameron Mitchell com o músico Stephen Trask. Disso saiu um musical, ou como os autores definiriam mais tarde, uma "odisséia de rock anatomicamente incorreta". Logo viraria estrondoso sucesso off-Broadway. Até tudo isso virar filme, ainda sob estrita tutela de Mitchell e Trask, foram sete anos. Talvez por isso tudo nele seja tão bem resolvido.

Quase nada denuncia sua origem teatral – nenhuma objeção a teatro filmado, que considero muito charmoso. Mas não é a intenção de Mitchell. No filme, a fotografia inteligente de Frank G. DeMarco e a edição de Andrew Marcus ("Psicopata Americano", "Uma Vida Iluminada") fazem a diferença, ajudando a transformar uma grande idéia em cinema de primeira. Este misto de musical alucinado, drama romântico/existencial e comédia escrachada é um programa inesquecível. O roteiro de Mitchell também é tiro certo: seguro na forma, impagável no conteúdo. E para ter certeza absoluta de que nada, nada mesmo, daria errado, ele não hesitou em assumir novamente o papel que o consagrara no teatro anos antes. Como Hedwig, Mitchell prova ser ator de muitos recursos, além de ótimo cantor. Foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel, colecionou prêmios em Sundance e conseguiu divulgar seu pequeno grande filme no mundo inteiro, fazendo bonito por onde passou.

As canções são um deleite. Difícil esquecer a bela "The Origin of Love", a cantarolante "Wig in a Box" ou a pedrada "Angry Inch". O elenco é uniforme e não perde ao incluir músicos de verdade, entre eles o próprio Trask. Destaque ainda para Miriam Shor como Yitzhak, o atual marido de Hedwig – a inversão de gênero aqui obviamente não é acidental. Pois em "Hedwig", gênero, sexualidade e identidade raramente convergem, apontando com todas as setas para a impossibilidade de se ter uma identidade classificável.

Perdida entre pseudo-categorias (homossexual, travesti, transexual), Hedwig não se enquadra em nenhuma. Sob o signo da indefinição, ela é pop e rock, norte-americana e alemã, exagerada e contida, homem e mulher. E assim, meio platônica, meio gnóstica cristã, ela procura sua outra metade, mas sua jornada a transforma na pessoa ressentida do início do filme. Sente-se deslocada, dividida, incompleta, e não parece haver ninguém no mundo que a aceite como é. Não é preciso ser Hedwig para entender. Todo mundo já se sentiu assim. Todos queremos ser amados, mas ao permitir que os outros nos categorizem, deixamos de ser indivíduos e nos tornamos paródias infelizes de nós mesmos.
Hedwig é afeita a entradas espetaculares


Hansel treina para o estrelato
Só os figurinos e as perucas já valeriam o ingresso

Arrasando corações ao som de "Sugar Daddy"

Setembro 23, 2005


Como é difícil encontrar na internet imagens que façam juz a este thriller exemplar...

"CINZAS DO PARAÍSO" (Cenizas del Paraíso, 1997)

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS CINZAS

Aviso aos navegantes: "Cinzas do Paraíso", de Marcelo Piñeyro ("Cenizas del Paraíso", 1997) tem uma das aberturas mais instigantes da história do cinema recente. Depois dela, é difícil desgrudar os olhos da trama. Só não vale confundir "Cenizas" com "Days of Heaven" de Terrence Mallick, que recebeu o mesmo título em português. Este aqui é um vertiginoso suspense argentino que mal lhe dará tempo para pensar.

Primeiro um homem (Hector Alterio) cai do alto de um prédio; em seguida uma moça ensangüentada (Leticia Brédice) é arrastada por um rapaz (Leonardo Sbaraglia) para dentro do porta-malas de um carro. Depois um outro jovem (Nicolás Abeles) queima a foto da mulher da cena anterior e tenta suicídio; por último, um terceiro rapaz (Daniel Kuzniecka) vai a cavalo para o meio do nada, atira no bicho e incendeia uma árvore. Os rapazes são irmãos; o homem que caiu do prédio é o juiz Costa Makantasis, pai dos três; a moça morta é Ana Muro, namorada de um deles e filha de Francisco Muro; e você ainda não sabe, mas Francisco Muro é justamente o figurão corrupto que o juiz Makantasis estava investigando antes de morrer.

Está armado o circo no qual a juíza Beatriz Teller (Cecilia Roth, sempre sublime) terá que decidir entre alavancar sua própria carreira ou correr riscos cada vez mais altos rumo à verdade. Não estamos num daqueles universos ficcionais onde tudo tende a acabar bem – esta é a Argentina dos anos 90, onde a corrupção institucionalizada está muito bem amparada por uma máquina administrativa poderosa e intimidadora. Os criminosos estão no topo da pirâmide social e sua condição demanda da juíza uma diplomacia sobre-humana: "Quanto mais longe do poder, melhor", setencia um dos ajudantes de Teller.

As coisas se complicam ainda mais quando os três irmãos Makantasis declaram-se individualmente culpados do assassinato de Ana. Eles afirmam que seu pai foi "suicidado", e acreditam que estão detidos para que a polícia tenha tempo de fabricar as evidências que encobrirão o fato. Não confiam na juíza. Não confiam uns nos outros. Mas o maior problema das cinzas ainda é o paraíso que elas evocam. E é para esse paraíso ameaçado que a memória de seus sobreviventes os joga de volta. Assim, em longos flashbacks à la "Rashomon", passamos pelas perspectivas de cada um dos irmãos para desenrolar o fio que os une nessa amarga tragédia de amor, corrupção e engano.

Se "Plata Quemada" é o trabalho de direção mais seguro de Piñeyro, o roteiro de "Cinzas" é de longe o melhor que ele já filmou. Complexo, bem construído e quase cruel em suas implicações, ele é fruto do esforço conjunto do próprio Piñeyro com Aída Bortnik. Não é só de política, mas também de moral, que o juiz Makantasis fala quando diz que Muro tem "uma mentalidade criminal"; é esse comodismo travestido de flexibilidade que faz Pablo pôr Ana contra a parede, perguntando de quantas maneiras uma coisa pode ser. A edição cirúrgica de Juan Carlos Macías e o trabalho do elenco recheado de estrelas (além de Roth, tem Alterio, Brédice e o internacional Sbaraglia) também são pontos fortes. A estória é excelente. Todos os papéis são bons. Não tinha mesmo como dar errado. Foi Goya de Melhor Filme Estrangeiro e tem lugar de destaque na seleta lista de thillers favoritos desta humilde comentadora.
Pablo se acusa

Ana se defende

A árvore marca o fim do paraíso e o início dos problemas

Setembro 08, 2005


Amor e posse - em cartaz, o deslumbrante "Casa Vazia", de Kim Ki Duk

"CASA VAZIA" (Bin Jip, 2004)

BELA PARÁBOLA SOBRE O CUIDAR

Por ter comentado recentemente outro filme do mesmo país ("Oldboy", de Park Chan Wook), resisti um pouco ante a idéia de comentar este "Casa Vazia" (Bin Jip, 2004). Mas a verdade é que as circunstâncias me forçam a dar mais um ponto no meu quadrinho para a Coréia do Sul. Se continuar assim, eles perigam ganhar de goleada.
Não é coincidência, na verdade. Temos ali um dos poucos mercados onde o cinema produzido em Hollywood não consegue competir com a produção local. Além de políticas internas de incentivo, vale mencionar que os caras não brincam em serviço. Falo de uma cinematografia onde impera a originalidade e a multiplicidade de linguagens – os cineastas não se parecem entre si nem repetem no filme seguinte as fórmulas do filme anterior.

Neste contexto, sobressai-se o prolífico Kim Ki Duk, que em menos de dez anos de carreira como diretor (ele já era roteirista de renome antes disso), fez doze filmes, incluindo o premiado "Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera" (2003) e o aterrador "The Isle" (Seom, 2000), onde ele já exercitava com primor a arte de dizer sem palavras. Em "Casa Vazia", ele responde por direção, produção, roteiro e montagem, demonstrando virtuosismo nas quatro frentes.

No filme, o jovem Tae Suk (Jae Hee) vive uma existência atípica: sem moradia certa e aparentemente sem família ou passado, ele invade casas cujos moradores estão em viagem. Entra, ouve a mensagem deixada na secretária eletrônica para saber quanto tempo tem na casa e vive lá enquanto isso. Não rouba nada, não danifica nada, come o necessário. Dispõe da casa como esta se apresenta a ele. Talvez em retribuição à hospitalidade compulsória, lava a mão algumas das roupas sujas, borrifa água nas plantas e conserta algum objeto quebrado. Ao fim, registra sua passagem pela casa com uma câmera digital.

Certo dia, invade uma casa ocupada. A moradora é Sun Hwa (Lee Seung Yeon), ex-modelo convertida em mulher-objeto de um marido violento (Kwon Hyuk Ho). Ainda é lindíssima, mas profundamente infeliz. E a chegada de Tae Suk a tira de seu torpor. Sem que ele saiba, agora é ela quem o observa, descobrindo nele um modo de vida que é o avesso de tudo o que ela já viu. Depois, ao se conhecerem, comunicam-se sem palavras, pois compreendem que estas são usadas quase sempre como máscaras para sustentar nossa intolerância, nossa incompreensão e nosso ardente desejo de mudar o outro.

O cinema oriental percebe e denuncia nossas relações de objetificação e posse com o meio em que vivemos. O amor, o verdadeiro amor, é fundamentalmente unilateral. Não por ser egoísta, mas precisamente o contrário: uma perspectiva egoísta do amor leva à sensação de vazio. Amar é cuidar, e nenhuma das duas coisas pode cobrar retorno. Fora desse ciclo, tudo é medo.

E Tae Suk pode parecer, num primeiro momento, um medroso bem-intencionado, ou alguém que foge de seu vazio existencial. Mas o vazio e o medo que enxergamos nele na verdade está em nós. Quando concebemos mentalmente uma boa vida, pensamos em uma casa que nos abrigue, um trabalho que nos satisfaça e alguém que nos ame. O objeto antecede a necessidade real. Quase ninguém pensa em cuidar do que possui como fonte de satisfação pessoal.

Uma casa, por suntuosa que seja, não tem razão de existir sem as pessoas que moram nela. Uma relação entre seres também não é uma instituição em si mesma – só somos amigos dos amigos que vemos sempre, só somos filhos dos pais que visitamos. Talvez por isso o rapaz jogue golfe usando sempre o ferro 3, o taco mais caro – e menos utilizado. Aqui começa o jogo de elementos com que o diretor irá alinhavar sua magistral idéia, contrastando o que de fato forma a identidade do gênero humano com as necessidades materiais com que mascaramos o vazio de nossa existência. Nenhum dos moradores cujas casas Tae Suk invade cuida bem daquilo que possui. E todo descuido traz em si a semente da fatalidade. Nem o próprio Tae Suk escapará a esta dura lição.

Já teríamos aqui material para um filme fenomenal, mas o prato que Kim Ki Duk tem em mente revela-se infinitamente mais saboroso. Enquanto temos a impressão de que ele joga a esmo com as infinitas possibilidades de seu roteiro, ele nos ludibria, caminhando com segurança para um final arrebatador. Não é um aprendiz de talento – é, com toda pompa e circunstância, um mestre da linguagem cinematográfica. O resultado, sufocantemente belo, resiste como um eco intermitente pela simples força de suas imagens. Delicioso de ver, fácil de amar e impossível de esquecer.
Tae Suk (Jae Hee) "interage" com a casa

Para Sun Hwa (Lee Seung Yeon), amar é lembrar


Tae Suk planeja sua fuga