GÊNERO, IDENTIDADE E ROCK N’ ROLL
A improvável figura de uma travesti com uma peruca Farrah Fawcett à frente de uma banda de rock pode parecer estranha, a princípio. E "Hedwig - Rock, Amor e Traição" ("Hedwig and the Angry Inch", 2001), de John Cameron Mitchell, começa exatamente assim: com a banda no palco. No caso, um restaurantezinho daqueles bem família, cujo público, entre garfadas, tenta em vão dominar sua perplexidade diante da inaudita performance. Mas o som da banda é sensacional. As canções são simplesmente perfeitas. E a vocalista, logo veremos, é uma crooner nata, e das boas. "Por que diabos eles não estão tocando para um público MTV e vendendo milhões de discos?", pergunta o espectador incauto.
É este o problema: eles estão. Pois um certo moleque, que responde pela hilariante alcunha de Tommy Gnosis (Michael Pitt, de "Os Sonhadores"), vem fazendo rios de dinheiro como suposto autor das músicas. Sua aparência, embora andrógina, é comercialmente mais vendável – um híbrido de Brian Molko com Billy Corgan. E enquanto corre o complicado processo por plágio da banda, eles seguem ferozmente a turnê de Gnosis tocando em qualquer espelunca, desde que seja vizinha ao local onde o jovem ídolo se apresenta.
Daria um bom filme, mas esta sequer é a premissa principal. Na verdade, o mais importante aqui é a trajetória de Hansel Schmidt (Ben Mayer-Goodman), um menino da Alemanha Oriental que mora com a mãe (Alberta Watson) perto de uma base militar americana. Abusado pelo pai, Hansel cresce isolado e solitário ao som da rádio das forças armadas. Debbie Boone. Anne Murray. Toni Tenille. Iggy. Lou. Bowie. Sacou?
E Hansel gosta de tomar sol nos arredores do muro de Berlim. Este, mais tarde, simbolizará sua própria divisão interior. Dado dia, conhece o soldado americano Luther (Maurice Dean Wint), que chega a confundi-lo com uma menina. Seu bilhete de saída para o ocidente adquire contornos evidentes, mas o anjo da guarda de Hansel, como ele mesmo diz, acaba dormindo durante a vigília.
"Hedwig" começou como drag-show numa boate gay em 1994 – esforço conjunto do então ator John Cameron Mitchell com o músico Stephen Trask. Disso saiu um musical, ou como os autores definiriam mais tarde, uma "odisséia de rock anatomicamente incorreta". Logo viraria estrondoso sucesso off-Broadway. Até tudo isso virar filme, ainda sob estrita tutela de Mitchell e Trask, foram sete anos. Talvez por isso tudo nele seja tão bem resolvido.
Quase nada denuncia sua origem teatral – nenhuma objeção a teatro filmado, que considero muito charmoso. Mas não é a intenção de Mitchell. No filme, a fotografia inteligente de Frank G. DeMarco e a edição de Andrew Marcus ("Psicopata Americano", "Uma Vida Iluminada") fazem a diferença, ajudando a transformar uma grande idéia em cinema de primeira. Este misto de musical alucinado, drama romântico/existencial e comédia escrachada é um programa inesquecível. O roteiro de Mitchell também é tiro certo: seguro na forma, impagável no conteúdo. E para ter certeza absoluta de que nada, nada mesmo, daria errado, ele não hesitou em assumir novamente o papel que o consagrara no teatro anos antes. Como Hedwig, Mitchell prova ser ator de muitos recursos, além de ótimo cantor. Foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel, colecionou prêmios em Sundance e conseguiu divulgar seu pequeno grande filme no mundo inteiro, fazendo bonito por onde passou.
As canções são um deleite. Difícil esquecer a bela "The Origin of Love", a cantarolante "Wig in a Box" ou a pedrada "Angry Inch". O elenco é uniforme e não perde ao incluir músicos de verdade, entre eles o próprio Trask. Destaque ainda para Miriam Shor como Yitzhak, o atual marido de Hedwig – a inversão de gênero aqui obviamente não é acidental. Pois em "Hedwig", gênero, sexualidade e identidade raramente convergem, apontando com todas as setas para a impossibilidade de se ter uma identidade classificável.
Perdida entre pseudo-categorias (homossexual, travesti, transexual), Hedwig não se enquadra em nenhuma. Sob o signo da indefinição, ela é pop e rock, norte-americana e alemã, exagerada e contida, homem e mulher. E assim, meio platônica, meio gnóstica cristã, ela procura sua outra metade, mas sua jornada a transforma na pessoa ressentida do início do filme. Sente-se deslocada, dividida, incompleta, e não parece haver ninguém no mundo que a aceite como é. Não é preciso ser Hedwig para entender. Todo mundo já se sentiu assim. Todos queremos ser amados, mas ao permitir que os outros nos categorizem, deixamos de ser indivíduos e nos tornamos paródias infelizes de nós mesmos.